Desde os últimos acontecimentos na região serrana do Rio de Janeiro, onde morreram mais de mil pessoas - um ano após o desastre do Morro da Carioca e da pousada Sankay, em Angra dos Reis, onde um outro tanto pereceu -, terrenos e casas situadas em encostas perderam muito do seu valor de mercado, e seguramente, deixaram de ser a menina dos olhos de muitos arquitetos. Eu estava em Angra, no réveillon de 2010 e jamais tinha visto tamanha quantidade de chuva contínua. Tais fatos nos obrigam a uma avaliação crítica de como se constrói em encostas, e o que fazer (se é que se pode fazer muito) para evitar ocorrências similares em quaisquer instâncias.
Assim, temos que compreender o que acontece em qualquer terreno em declive ou aclive, quando chove em quantidade. A mecânica do solos, uma ciência em desenvolvimento, cadeira da Engenharia Civil, é quem cuida dessa parte. Num certo aspecto, e bem grosseiramente, poderíamos compará-la, talvez, com a vulcanologia, ou seja, entende-se o processo, mas não se tem como prever seus movimentos com antecipação. Ninguém pode adivinhar quando um morro vai deslizar (principalmente com a grande variação verificada nos índices pluviométricos atuais), assim como não se sabe quando um vulcão vai explodir, ou quando um grande terremoto ocorrerá. A equação só se resolve com o acontecimento em si. Em todos os casos o fenômeno é perfeitamente explicado após sua conclusão. Todos sabemos o que aconteceu nos deslizamentos de Angra, nas serras fluminenses e no morro do Bumba, em Niterói, assim como no recente tremor japonês. Como ocorre com certas doenças do corpo humano, a solução está na prevenção. E no caso das cidades, a prevenção passa pela não ocupação de certas áreas ou no seu uso racional. Muita gente não vai gostar disso, mas temos que evitar, e a todo custo, as construções em encostas. Pelos dados concretos de que já dispomos (a última incógnita da equação), nenhum engenheiro ou arquiteto pode garantir que certo morro nunca irá desabar. Há uma ou outra condição em que se pode ocupar um terreno inclinado: grandes maciços graníticos, onde possamos apoiar as fundações diretamente sobre a superfície da pedra, ou em superfícies de planaltos, longe das laterais anguladas. E só. O resto é conversa fiada. Portanto, muito cuidado antes de comprar um terreno naquela montanha linda, com vista panorâmica para o vale ou para o mar. Consulte um profissional da área, engenheiro ou arquiteto, e com muita experiência.

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