Quem sou

Rio de Janeiro, Centro, Brazil
ARQUITETO E EMPRESÁRIO, PREOCUPADO EM DISSEMINAR INFORMAÇÕES RELEVANTES EM ARQUITETURA APLICADA.

Reconciliando o Arquiteto com a Sociedade.



 Aqui estamos nós, cutucando as feridas de muitos sobreviventes desse embate ferrenho: a relação entre clientes e arquitetos que, para a infelicidade geral da classe “arquiteteira”, quem sai mais machucado é o velho e bom cliente. Dito assim, quem deveria ficar infeliz seria o cliente, que saiu cheio de marcas, não é? Quem responder que sim, esquece de um pequeno detalhe: as feridas se curam, mas as lembranças ficam. O resultado é que o cliente cria verdadeira aversão à nossa profissão, reluta em procurar outro profissional e, finalmente, nivela a todos por baixo. A infelicidade dos arquitetos está no fato de que, com o passar dos tempos, a classe vem caindo no ostracismo, no abandono, na descrença. Como se vê, a infelicidade tarda, mas não falha. A cada vez que ouço as estórias de profundo arrependimento contadas por quem contratou um arquiteto, me vem um misto de tristeza, vergonha e raiva, não necessariamente nessa ordem.
Quantas vezes já vimos pessoas torcerem o nariz quando falam de suas experiências com arquitetos (curiosamente, mais problemáticas do que com engenheiros), lamuriadas com casos de prejuízos, erros de projeto e tantas outras agruras? Profissão outrora respeitada e querida, a arquitetura parece sobreviver melhor em obras corporativas, que nos trabalhos do dia a dia, onde, certamente deveria atuar com mais ênfase, renovando, modernizando e corrigindo os sítios urbanos, a partir de suas células mais elementares - casas, ruas, praças, parques, etc. Mas, porque chegamos a esse ponto? Embora não seja uma análise tão simples, me arrisco a levantar algumas teorias, sem me furtar de oferecer a cara aos tapas que certamente virão de todos os lados. Afinal, criticar é muito fácil, mesmo que seja do alto do nosso calcanhar. Porém, aqui não vai apenas uma crítica a colegas, mas, antes disso, um alerta: estamos desmontando o talude por baixo; a terra acima pode descer sobre nós. Vamos lá:

 1 – Capacitação - formação profissional

Do latin architectus esse profissional das obras e das artes era intitulado, na antiguidade, de ”senhor do conhecimento”, designação nada mais que natural para quem era responsável pela construção das grandes pirâmides e palácios egípcios, repletos de significados esotéricos, herméticos, associações matemáticas e astronômicas. A falha num empreendimento egípcio, comumente levava o arquiteto à sumária pena de morte. Melhor estar bastante preparado para a empreitada...
Profissional da antiguidade, planejador das cidades romanas, dos imensos castelos medievais, artífice do Renascimento, seu perfil só se altera com a chegada da era industrial, quando efetivamente surgem as primeiras especializações. A criação do concreto-armado, os cálculos específicos e a rápida ascensão das engenharias colocam o arquiteto num patamar paralelo, talvez com certa queda de prestígio e desvalorização profissional. A geometria perde para a matemática, a arte perde para a técnica. O arquiteto divide o conhecimento com engenheiros e matemáticos e a arquitetura se fragmenta em novas soluções, cada uma delas a cargo de um profissional específico. O velho “senhor do conhecimento” já não sabe tudo.
Enquanto nos países desenvolvidos o arquiteto tem uma formação técnica e específica mais sólida, o Brasil das últimas décadas patinou na educação de base e na qualidade do ensino superior. É óbvio que isso se reflete em todas as profissões, e de maneira especial nas classes que fazem mais uso da intuição que das tabelas de cálculos, como os advogados, médicos, psicólogos e tantos outros. Na nossa, que despeja no mercado uma respeitável quantidade de “jovens do desconhecimento” a disputar a clientela na base de tapas e com baixíssima remuneração, o resultado não poderia ser diferente. E, como em todas as áreas onde impera o despreparo, surgem outras conseqüências, como veremos adiante.

2 – A Vaidade

No filme O advogado do Diabo, do diretor Taylor Hackford, Al Pacino, no papel do Tinhoso, lá pelas tantas lembra à platéia que “a vaidade é o pecado predileto do Diabo”. E deve ser mesmo, já que, por conta dela, muita gente boa perdeu o rumo na vida. Arquitetos, atores, pintores e artistas em geral, têm sido presas fáceis desse tentador pecado capital. Incontáveis foram as vezes em que se viu o delírio do arquiteto inviabilizar a conclusão de um projeto, fosse por custo  excessivo, fosse por inconsistência técnica. Há um caso de uma construção que ruiu em face da ausência de projeto estrutural, onde o arquiteto, fiando em sua soberba, subestimou as necessidades da obra; o cliente foi a vítima fatal da tragédia. Médicos e engenheiros, assim como outros profissionais também já fizeram das suas. Mas, não estamos aqui para falar deles, e sim, para aprendermos um pouco mais de humildade e respeito aos limites dos materiais e das contas bancárias dos clientes. Temos que extinguir a máxima de que o “arquiteto torna a obra muito mais cara”, mito nascido e criado nas pranchetas da vaidade e nunca no juramento da profissão.
  
3 – O Ante-profissionalismo.  

Com um panorama assim, terreno fértil para o cultivo de enganos, as faculdades formam muito mais operadores de desenho em CAD que arquitetos. Não há mais traços, croquis ou esboços; são layers, imagens em 3D, passeios virtuais pelo projeto e um sem número de recursos técnicos que transformam qualquer curioso em um arquiteto de fim-de-semana. Nada contra, quando tudo isso traz a reboque o conteúdo imprescindível de uma boa formação acadêmica. Mas não é o que se vê. Já encontrei operadores de plotadoras que, familiarizados com o Autocad, fazem desenhos para terceiros, conforme a encomenda do “cliente”. Pedreiros e empreiteiros de obra “projetam” banheiros e cozinhas para muitas madames da classe média; decoradores de ambientes (muitas vezes simples vendedores de mobiliários) praticam o que chamam pomposamente de “arquitetura de interiores”, sem terem a mínima noção do conceito de Espaço Arquitetônico; fazem-se de arquitetos, por vezes intitulam-se como tal e, quando criticamos esse comportamento, se “sentem” perseguidos e humilhados. E para emoldurar esse cenário de Dante, vendem-se, nas bancas, coleções de revistas com projetos, os mais bizarros, para todos os tipos de freguês.
  
4 – Os Desvios de Conduta

E aí a Arquitetura virou artigo de banca de jornal. Logicamente, não é de se espantar que anomalias como a famosa “ART sejam cultivadas e até ferrenhamente defendidas pelos arquitetos e decoradores. Em qualquer grande loja que atenda à arquitetura e decoração, a simples visita do arquiteto gera imediato assédio do vendedor que lhe informa em voz alta, bom tom e sem nenhum constrangimento: “também trabalhamos com ART para o arquiteto”. Essa frase tem soado como música para muita gente boa e, estranhamente, para arquitetos verdadeiramente talentosos - talvez até mesmo brilhantes - mas que, em algum momento de suas vidas, tomaram esse equivocado atalho.
Quando conversamos reservadamente com lojistas e vendedores desse segmento, tomamos conhecimento da tragédia que isso já representa para a nossa classe. Arquitetos que recebem boa remuneração de clientes para conduzi-los na elaboração de suas reformas e re-decoração de seus ambientes, lhes impõem fornecedores, lojas e produtos que lhes rendem maior ART. Pasmo, ouvi de vendedores, relatos estarrecedores das ações de colegas arquitetos que, por ambição e descaso com seus clientes, simplesmente ameaçaram abandoná-los à própria sorte, caso os móveis da loja “X” não compusessem seu projeto. Ora, não estamos falando de um artista de peso, a quem o reconhecimento universal pela qualidade de sua obra o deixe à vontade para esse tipo de exigência; estamos falando de um sujeito de caráter duvidoso, irresponsável e presunçoso, que faz mau uso dos seus recursos e conhecimentos, atitudes que severamente desqualificam nossa profissão e nossa classe, além colocá-lo às margens da Lei:


LEI Nº 8.078 - DE 11 SET 1990
Dispõe sobre a proteção do consumidor, e dá outras providências

Seção IV
Das Práticas Abusivas
Art. 39 - É vedado a fornecedor de produtos ou serviços:
I - condicionar o fornecimento de produto ou serviço ao fornecimento de outro produto ou serviço, bem como, sem justa causa, a limites quantitativos;

Por outro lado, a legítima comercialização de produtos e serviços por qualquer profissional, inclusive arquitetos, médicos, engenheiros e inúmeros outros profissionais de classe, que de bons vendedores culminam por se tornarem Representantes Comerciais, por exemplo, é de enorme valia para o mercado como um todo. É a sofisticação da atividade de venda, com ganhos para o consumidor, que recebe as informações adequadas sobre o que adquire e consome e, claro, também para o vendedor, esse profissional valiosíssimo para a movimentação da economia.  A prática concomitante da atividade, com a da profissão específica, no entanto, deve ser norteada pela ética. Nesses casos, o conflito de interesses pode ser fatal.
De um diagnóstico um tanto sombrio, o “quadro clínico” da arquitetura vai piorando ao longo do tempo. Ao contrário do que se possa supor, a clientela evolui; a informação se dissemina aos ventos. Percebendo-se iludida, essa clientela torna-se cuidadosa e desconfiada. Expõe suas feridas aos amigos e o mal se espalha. Assim, desrespeitado pelos fornecedores e desacreditado por parte da sociedade, o arquiteto, antes um profissional de méritos indiscutíveis, hoje se arrasta pelos pequenos escritórios, tocando pequenas obras e serviços, na sofrida tentativa de sobreviver com alguma dignidade. Mas, como nem tudo está perdido, percebe-se que sempre existem excelentes profissionais que resgatam boa parte dos brios dessa bela carreira e que passam ao largo da mediocridade reinante. Conheço alguns deles. Em sua grande maioria, são íntegros, dedicados, altivos de caráter, sem, contudo, se portarem com arrogância. Bem sucedidos, quase sempre, colhem apenas do que plantam. Eis aí a diferença entre a mediocridade e a pujança.

- Adicional de Reserva Técnica – Propina paga aos arquitetos que indicam ou conduzem os clientes a determinadas lojas, que os remuneram por isso, onerando o custo da mercadoria adquirida por este cliente. De praxe, cobra-se 10% do valor da venda. Mas há casos em que essa taxa chega a triplicar. A associação da expressão à ART/CREA é mero jogo de palavras. (vide observação abaixo).

Obs.:
ART (Anotação de Responsabilidade Técnica): Documento de registro da obra/projeto no CREA - Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia. Garantia, para o Cliente, de que sua obra/projeto está sob a responsabilidade de um profissional registrado.

5 – E agora, o que faremos? 

Acredito que a primeira atitude para a efetiva mudança desse quadro, seja a de se procurar conscientizar a classe e o cliente sobre essa realidade distorcida. Arquitetos e arquitetas que sobrevivem dessa prática, dificilmente mudarão de comportamento. A ação fiscalizadora do cliente - uma de suas obrigações, afinal - ajudaria a inibir a prática da ART, desde que, com remunerações negociadas justas e dignas. Como qualquer trabalhador, o arquiteto vive de sua produção.    
Paralelamente, as faculdades poderiam incluir em seu currículo, uma cadeira que trabalhasse a ética na conduta profissional. As instituições de ensino superior têm, sim, uma enorme responsabilidade na formação do indivíduo, ainda mais hoje, onde cada vez mais adolescentes sentam-se nas cadeiras universitárias. O Código de Ética Profissional adotado pelo CONFEA/CREA é um belo documento, que bem ilustra a maturidade dos nossos Órgãos de Classe; a Lei brasileira é moderna e responde de maneira perfeitamente adequada a quaisquer desafios das relações comerciais entre fornecedores e consumidores de produtos e serviços. Os formandos deveriam estudar profundamente tais códigos, o que lhes daria uma visão bem mais ampla de seu papel social e de suas responsabilidades. O IAB – Instituto dos Arquitetos do Brasil, por exemplo, traz à luz o papel histórico de lutas pela profissão. A classe precisa conhecer a trajetória da arquitetura no país, através dos seus setores mais representativos; ninguém contribui com o que desconhece. Para melhor entender do assunto, basta dar uma olhada na legislação:

1.    LEI Nº 4.950-A - DE 22 ABR 1966 - Dispõe sobre a remuneração de profissionais diplomados em Engenharia, Química, Arquitetura, Agronomia e Veterinária.
2.    LEI Nº 5.194 - DE 24 DEZ 1966 - Regula o exercício das profissões de Engenheiro, Arquiteto e Engenheiro Agrônomo e dá outras providências.
3.    LEI Nº 8.078 - DE 11 SET 1990 - Dispõe sobre a proteção do consumidor, e dá outras providências.
4.    RESOLUÇÃO Nº 205, DE 30 SET 1971, do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia - Adota o Código de Ética Profissional.
5.    RESOLUÇÃO Nº 401, DE 06 OUT 1995, do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia - Adota o Manual de Procedimentos para a condução de processo de infração ao Código de Ética Profissional.

*² - “O arquiteto não poderá aceitar, fora dos seus direitos autorais ou salários, qualquer outra quantia, sob forma de comissões e vantagens, paga por fornecedores, negociantes, construtores, empreiteiros ou outros relacionados com os seus trabalhos.
(Item 3.4 do Artigo 3º das NORMAS DE CONDUTA PROFISSIONAL DO ARQUITETO - Aprovadas pela Assembléia Nacional do Instituto de Arquitetos do Brasil em 08 de maio de 1964).

E, finalizando, o juramento do arquiteto, só para não nos esquecermos do que somos, seguido de uma desconhecida oração, provavelmente fruto de alguma mãe desiludida, ou de um padre, cuja obra
ainda perdura até hoje...

“Ao Receber o grau de Arquiteto e Urbanista, assumo o compromisso de honrar esta profissão e a sua história, de ser leal aos meus colegas, no exercício de minhas atividades, de resguardar o interesse coletivo, no uso das minhas atribuições, e de utilizar todo o meu conhecimento, para corresponder à confiança e expectativas que a sociedade, por meio deste diploma, em mim deposita.”


Oração pelos Arquitetos
Pai de misericórdia, Deus da vida, Senhor de bondade, /os arquitetos tem a função de fazer, planejar, riscar, criar as construções, conceber formas novas que embelezem as cidades a as construções. / Senhor, T, que és o grande arquiteto do universo, / fizeste esta maravilha, que é a criação do mundo, para ser nossa morada, / nós, que somos a obra prima de tuas mãos. / Que os profissionais da arquitetura sejam honrados, sejam dignos, cumpram bem a sua missão e tornem cada vez mais belo nosso habitat com a sua profissão, / para que a beleza possa salvar esse mundo, salvar essa geração. / Tu que és a beleza infinita, a Ti glória e louvor para sempre. / Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, o mais belo dos filhos dos homens, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo. / Amém.